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10/08/2004 20:29
INVERNO
A rua aponta para o gigante estruturado em concreto e alvenaria de tijolos para dar forma a um edifício de 15 andares no estilo art-déco. Faz frio. O sol atrás das muralhas vazadas, não consegue penetrá-las, dando a sensação de que os astros, o mundo, estão do lado errado. A imensidão da sombra obtsusa e reta cria um mundo, um planeta diferente: quem está na penumbra do dia e quem projeta a sombra criada pela luz artificial de lustres pesados e decadentes, testemunhas de um passado de gloriosas futilidades brilhantes, vistosas e perfumadas, que migrou suas pompas além dos limites da Consolação com a Barão de Itapetininga.
A rua continua a apontar. Siga em frete sem hesitar. Suba os três degraus até o patamar revestido pelo castigado mármore carrara (branco). Ande sete passos para atravessar a pesada porta de aço de quase quatro metros de altura pintada de preto. A carpintaria do aço pintada de dourado, forma ornados na conformidade da arquitetura do edifício.
Do Lado esquerdo do átrio, um homem calvo, sexagenário, estatura mediana, de traços nordestinos, trajando um terno azul com o brasão do Hotel bordado do lado esquerdo, exibe um sorriso discreto e lhe pergunta o seu nome e o motivo da sua presença atrás do balcão da recepção.
Décimo quinto andar, ele lhe responde.
Ele aponta a direção dos elevadores, perto do bar. Na fileira dos elevadores, um acesso para um foyer. Você não resiste e vai bisbilhotar. Pessoas fantasiadas, no salão uma big band tocando High Society (Monk Hazel& his Bienville Roof Orchestra, 1928). O elevador chegou. A tripulação desce: uma mulher de trinta e cinco anos no máximo, de silhoueta delgada, pele branca, de rosto bem feito e olhos castanhos escuros e profundos, fantasiada de Cleópatra, com o abdômem e os ombros à mostra, está de braços cruzados na tentativa de enganar o frio. Ao fitar os seus olhos, dá um sorriso tímido, levantando apenas o lado direito dos lábios, contraindo a maçã do rosto lembrando crianças que ficam no banco de trás dos carros acenando para estranhos, e, quando o cumprimento é retribuído, devolvem esse mesmo sorriso da Cleópatra, submergindo depois para as profundezas do acento traseiro. A mulher desaparece no meio do colorido das fantasias.
As teclas desgastadas, com os tipos em baixo relevo, denunciando o destino: 15. O elevador é revestido por placas de metal dourado, desgastado pelo tempo. O mesmo acontece com o espelho no fundo com manchas pretas, pequenas, mínimas e outras maiores.
O sinal. Décimo quinto andar. O corredor de luz indireta, de paredes velhas e cansadas ganha um pouco de vida pela amarelada luz do Sol do fim de tarde que a porta entreaberta deixou escapar, te convidando a ultrapassar o limite que separa o corredor do quarto.
Ao entrar, o piso de madeira; conta os passos em sons. Uma cama de casal, grande e generosa. No canto direito ao lado do banheiro: uma penteadeira, do lado oposto um toca disco dos anos 70, uma modernidade já ultrapassada no velho edifício dos anos trinta. O disco está girando, porém a agulha está pairando sobre ele, esperando que alguém a abaixe. Você atende a solicitação. A música inunda o quarto. Smiths.
Girlfriend in a coma , I know
I know its serious
A porta-balcão aberta, escancarada para a varanda com vista para o Antigo Centro até o maciço da Paulista. À minha direita, onde o Sol está se pondo, os edifícios em gris de cinza, são transformados em cubos amarelados, de brilhos salpicados pelo reflexo das janelas. Um deserto em alto relevo. Essa mesma luz invade o quarto em diagonal, assim como o vento gelado que faz as cortinas dançarem, dando tapas opacos na parede.
Caminhe até a cama. Tire os sapatos. Deite-se de lado em posição fetal, escore o braço direito na cabeça sobre a ponta do travesseiro, deixando o vento e o sol abraçar seu corpo.
Would you please
let me see her!
Do you really think
Shelll pull throughg?
A música é agregada às outras notas multitimbrais da cidade: dos berros dos autos ao crispar das folhas mortas para dar vida à polifonia urbana. Durma enquanto ele(a) está chegando.
Escrevi isso depois de assistir Encontros e Desencontros de Sophia Copolla.
Terminei as correções, em punho, no dia 06 de agosto em uma Lan House da rua Pamplona, enquanto a minha cumadre Dona Milene, estava respondendo mensagens.
Não quis determinar o sexo da segunda pessoa, pois tanto os mano quanto as mina acessam o odapoltrona
"MOTOMO : O FLAGELO DE DEUS" PARTE 2
"DOR, LÁGRIMAS E RETALIAÇÃO"
AGUARDEM...
enviada por odapoltrona
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